VILIPÊNDIO A SÍMBOLOS RELIGIOSOS

A recente “performance artística”, na qual um brasileiro, afrodescendente, rala uma estátua de gesso de Nossa Senhora Aparecida e joga o pó sobre si, reavivou a polêmica sobre a relação entre liberdade de expressão e vilipêndio a símbolos religiosos. Vilipêndio significa desrespeito praticado por fala, escrita ou gestos ofensivos.

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

O artigo 208 do Código Penal Brasileiro diz que “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”, é crime, podendo acarretar penalidades, até mesmo prisão.

O artista responsável por essa “performance” explica em um portal da internet que “ralar uma imagem preta até reduzi-la a um pó branco, jogar esse pó sobre si, após um trabalho braçal extenuante, se encobrir, fazendo desaparecer sua pele, sua identidade, são aspectos que a performance toca”.

Ele utiliza-se da liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal, para uma pretensa crítica sociocultural religiosa, com o inconveniente, porém, da interpretação gerada sobre vilipêndio de “objeto de culto religioso”, e o agravante de um ato que, segundo o artigo 233 do Código Penal Brasileiro, pode ser considerado obsceno.

Embora devamos respeitar a valorização proposta por ele da identidade corpórea do ser humano, particularmente de sua própria identidade “mestiça”, devemos nos perguntar sobre a conveniência de ter-se utilizado para isso, em uma forma que está sendo considerada indecorosa, de um símbolo religioso preciosíssimo para o catolicismo, especialmente no Brasil.

Se esse artista quis provocar polêmica, conseguiu. Até mesmo evangélicos se sentiram importunados, pois reavivou-se a consciência de que alguns deles, vez ou outra, também vilipendiam símbolos católicos, associando-os infundadamente à idolatria. Interpretações de textos bíblicos, fora de seus contextos, suscitam-lhes essa conclusão equivocada.

Não podemos estigmatizar os que nos ofendem “pagando com a mesma moeda”. Por isso, em lugar de colocar “lenha na fogueira”, devemos dialogar, procurando criar entendimento entre os distintos pontos de vista presentes em todos os tipos de expressão cultural e religiosa, salvaguardando o respeito mútuo, afinal, defender-se é um direito, mas atacar, irrespeitosamente, é um delito.

Não há mal pior do que os seres humanos se digladiarem, destruindo-se mutuamente. Por isso, nós, católicos, exigimos respeito a nossos símbolos, em especial às imagens da mãe de Jesus e de todos que testemunharam fé autêntica nele, enfatizando o devido respeito a todos os seres humanos, até mesmo aos que nos ridicularizam ou nos criticam injustamente.

Vale ressaltar a necessidade do respeito, acima de tudo, entre os seres humanos e à própria imagem dos seres humanos. Estes são imagem e semelhança de Deus. Deixemos, portanto, de alimentar polêmicas destrutivas. Alimentemo-nos sim, de um bem maior que é o amor a Deus e ao próximo.

Evitemos, enfim que nos desviem a atenção do que mais importa, hoje, ao povo brasileiro: um pais justo, honesto e fraterno. Enquanto polemizamos em torno de símbolos religiosos, os que se apropriam do poder e das riquezas deste país, nos desnudam de nossos direitos, ralam nossa imagem de filhos de Deus, fazem nossa dignidade virar pó e instigam o conflito entre os explorados.

Que Maria, mãe de Jesus, dos pobres e oprimidos, rogue a Deus por nós, e Cristo nos livre do mal!

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1 Comment

  1. Francisco Roberto Vieira 7 de novembro de 2017 at 19:52

    O Mistério de Maria
    O Mistério de Maria tem seu início, como sabemos, no livro do Gênese:
    “Então Iahweh disse à serpente: Por que fizeste isso és maldita entre todos os animais domésticos e todas as feras selvagens. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar.”(Gen 3, 14-15)
    Quem é essa mulher que conjuntamente com sua descendência é inimiga da serpente e que descendência é essa?
    Aí começa o mistério de Maria.
    Todos nós fomos predestinados por Deus e colocados em seus planos antes mesmo da criação do mundo. “Nele (em Cristo) o Pai nos escolheu antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dEle no amor. Ele nos predestinou para sermos os seus filhos adotivos por Jesus Cristo” (Fil 1, 4-5). Da mesma forma, Maria. Ela foi predestinada por Deus para ser o que de fato ela foi: sua filha, a mãe do Salvador, para ser inimiga da serpente e para ter uma descendência que somos nós, a Igreja de Cristo.
    Abraão é, com justiça, considerado como o homem da fé e por sua fidelidade recebeu de Deus em herança uma descendência: “Deus lhe falou assim: Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: Serás pai de uma multidão de nações” (Gen. 7m 3-4). De fato, Abraão foi desafiado a acreditar, não no impossível, mas no absurdo de subir a montanha junto com seu único filho Isaac, que carregava a lenha para um sacrifício pedido por Deus e cuja vítima era o próprio Isaac. Maria, a mulher da fé, acreditou no impossível e no absurdo: ter um filho único sem conhecer nenhum homem e subir o Calvário com Ele, que carregava a cruz onde seria sacrificado ao Pai. Aos pés da cruz a mãe “permanecia de pé”.
    Abraão não precisou sacrificar seu filho, pois seria um sacrifício inútil, mas Maria teve que ir até o fim: ver seu Filho amado e único como Isaac, morrer na cruz.
    É impossível que Maria, “cheia de graça” não tenha intuído e pressentido com a inspiração do Espírito Santo que estava diante de uma grave opção de consequências grandiosas tanto em dores quanto em alegrias: ”o poderoso fez grandes coisas em meu favor” e “Doravante as gerações todos me chamarão de bem-aventurada”. Assumindo o canto de Ana (1 Sam 2,1-10) não poderia dar a Deus um “sim” irresponsável, displicente e leviano. Este “sim” como o de Abraão, foi um salto no abismo de Deus, um ato de fé.
    Desde o início, o velho Simeão já lhe avisara: “e a ti, uma espada traspassará tua alma!” (Luc.2, 35). Pode-se dizer que este fato foi o primeiro anúncio da Paixão do Senhor e foi feito a Maria.
    Abraão atendeu ao pedido do Senhor baseado na fé, da mesma forma Maria acreditou, como proclama Izabel cheia do Espírito Santo: “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Luc 1, 45). Abraão aceita silenciosamente o ordem do Senhor, mas Maria declara com palavras a sua fé: “ Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra.” (Luc 1, 38). Então, sua descendência começa com Jesus e continua em todos nós seus irmãos, sua Igreja, seu Corpo Místico, o Corpo Místico de seu Filho.
    Podemos dizer que a Paixão tinha que estar presente na vida dessa família, pois esta seria o momento da glorificação do seu Filho e afinal, foi para isso que Ele veio ao mundo. Além de um nascimento cheio de mistérios, com a mirra dos funerais, aos doze anos de Jesus, uma grande aflição justamente em Jerusalém e justamente na festa da Páscoa: Jesus desaparece por três dias e justamente no terceiro dia é reencontrado por sua mãe aflita; não podemos ver aí um outro sinal da Paixão? Um sinal que vai se repetir na festa das “núpcias” de Caná num milagre que prenuncia tanto a paixão, a sua hora, como a Eucaristia. A hora de Jesus foi, sem dúvida aquela hora que Maria deve ter pressentido por toda vida desde a anunciação.
    A subida do Calvário junto a Jesus, a dor de cada troca de olhares entre a mãe dolorosa e seu Filho, foram já sinalizadas em Caná da Galiléia. Água, vinho, bodas, minha hora, são indicações de sua gloriosa Paixão. Jesus desejou que seu primeiro sinal, fosse o sinal de sua morte e ressurreição, do milagre da Eucaristia, que brota do seu lado junto com a água do Espírito que vivifica sua Igreja, seu Corpo Místico unificado a Ele, sua cabeça.
    As núpcias de Caná também prenunciam o grande banquete das bodas do Cordeiro com sua Esposa, a Igreja, a descendência de Maria. a mãe que estaria ao pé da cruz, onde receberia finalmente sua “descendência” (Gen 3,14-15) , pelo próprio Verbo de Deus: “Mulher, eis aí o teu Filho” (Jo 19,26).

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